02COMPORTAMENTO & NEUROCIÊNCIA

Como as imagens afetam decisões e emoções no mercado imobiliário?

20 set 20269 min de leituraVoltar ao blog
Como as imagens afetam decisões e emoções no mercado imobiliário?

Quando alguém olha para uma imagem de arquitetura, não está apenas recebendo informação. O cérebro seleciona o que merece atenção, compara sinais, constrói expectativas e tenta imaginar como seria ocupar aquele espaço.

A primeira etapa é conseguir atenção

Em estudos de comportamento do consumidor, a atenção visual está relacionada ao processo de escolha. Um estudo publicado na Appetite e indexado no PubMed encontrou que a atenção visual foi o preditor mais importante da compra observada, mesmo após controlar outros fatores, em um ambiente de supermercado. [1] O contexto não é imobiliário, então não devemos transferir o resultado diretamente para lançamentos; ele ajuda a explicar um princípio geral: antes de uma mensagem persuadir, ela precisa ser percebida.

Preferência e atenção se misturam

Em outro experimento, participantes avaliaram produtos em um ambiente de compras virtual enquanto sua atividade cerebral era registrada por EEG. Preferências subjetivas influenciaram marcadores neurais ligados à atenção e também estavam associadas às decisões de compra posteriores. [2] Isso reforça uma ideia útil para arquitetura: composição, atmosfera e repertório visual não são decoração neutra; eles participam daquilo que o observador escolhe continuar examinando.

800–3000 msjanela em que o estudo de 2017 observou modulação de ondas cerebrais relacionadas a preferência em resposta a produtos.Biological Psychology, 2017

Por que 'parece que eu estou lá' importa?

Imagens arquitetônicas eficazes tentam produzir mais do que reconhecimento. Elas ajudam o cérebro a construir uma simulação espacial: onde estou, para onde olho, como a luz entra, qual é a relação entre ambientes e, principalmente, se consigo me imaginar naquele lugar.

Um estudo com fMRI comparou três formas de apresentação de produtos em compras on-line — imagem estática, zoom e vídeo de rotação. O estudo, com apenas 24 participantes, encontrou a maior acurácia de classificação neural na condição de rotação, chegando a 95%. Isso não significa que vídeo gere 95% mais vendas; significa que, naquele experimento exploratório, padrões de atividade cerebral foram classificados com maior acurácia quando havia uma apresentação rotacional. [3]

E no mercado imobiliário?

Aqui já aparecem evidências mais diretamente relacionadas. Um estudo de 2024 sobre experiências imobiliárias imersivas comparou condições com fotos, vídeo 360° e head-mounted display. Os autores relataram maior resposta emocional para experiências 360°/VR e maior sensação de presença em relação às fotos, mas também destacaram limitações de amostra. [4]

Outro trabalho publicado em 2026 investigou tecnologias imersivas no setor imobiliário com 404 respondentes em Delhi NCR e aplicou modelagem de equações estruturais para analisar relações entre fatores cognitivos, afetivos e intenção comportamental. O estudo é interessante justamente porque tenta conectar tecnologia de visualização e comportamento no contexto imobiliário, mas o resultado deve ser lido dentro do contexto geográfico e metodológico da pesquisa. [5]

Emoção não substitui informação — ela organiza a atenção

O comprador não precisa apenas sentir que gostou. Ele precisa entender o que está vendo. Por isso, o melhor trabalho de visualização combina duas camadas: uma camada emocional, que cria interesse e desejo, e uma camada cognitiva, que ajuda a interpretar espaço, circulação, escala e atributos do produto.

Na prática, isso muda a forma de montar um material de vendas. Uma imagem externa pode criar valor percebido. Uma interna pode construir identificação. Uma planta pode retirar ambiguidade. Um tour pode resolver dúvida espacial. A animação pode organizar tudo isso como uma narrativa.

O que a ciência permite afirmar — e o que ainda não permite

  • É razoável afirmar que atenção visual, preferências e resposta emocional participam das decisões de consumo.
  • É razoável afirmar que experiências imersivas podem aumentar sensação de presença em comparação com imagens estáticas em alguns contextos.
  • Não é correto prometer que 'um render bonito faz vender' nem atribuir causalidade direta de uma técnica visual isolada a uma venda imobiliária.
  • Pesquisas especificamente sobre renders de lançamentos ainda são menos numerosas do que pesquisas gerais de consumo, e os resultados devem ser transferidos para o setor com cuidado.

FONTES

Leituras e estudos citados

  1. Looking is buying. How visual attention and choice are affected by consumer preferences and properties of the supermarket shelf. PubMed, 2017.
  2. Neural signals of selective attention are modulated by subjective preferences and buying decisions in a virtual shopping task. PubMed, 2017.
  3. Seeing It Is Like Touching It: Unraveling the Effective Product Presentations on Online Apparel Purchase Decisions and Brain Activity. International Journal of Human–Computer Studies, 2021.
  4. Comparing the effects of immersive and non-immersive real estate experience on behavioral intentions. Computers in Human Behavior, 2024.
  5. Exploring the influence of immersive technologies on purchase behavior in the real estate sector: a cognition-affect-conation model approach. Property Management, 2026.